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A “(des)inventividade” de um plágio

Atualizado: 30 de set. de 2022





Por Norian Segatto


O crítico de cinema e cineasta Jairo Ferreira faleceu em agosto de 2003, aos 58 anos, menos de três anos após relançar seu clássico livro Cinema de Invenção. Fui apresentado ao Jairo no ano 2000 pelo amigo Roberto Barbosa, já conhecia seu livro, lançado pela Embrafilme em 1986, posteriormente reeditado pela Max Limonad, da época da universidade, sempre considerei uma obra fundamental para compreender o cinema brasileiro; a escrita anárquica e brilhante de Jairo Ferreira é a síntese da inventividade do cinema marginal – ou da boca do lixo, mas isso é assunto para outro dia.


Para mim, que já era fã do livro, ser procurado para reeditá-lo foi uma honra. Cinema de Invenção foi o primeiro título publicado pela Limiar, fundada em 2000. Por quase um ano trabalhamos no livro para fazer uma edição primorosa: conferimos minuciosamente as informações, Jairo escrevia muito de memória e foi necessário checar todas as datas e referências dos filmes, cineastas, atores/atrizes etc.; foi feito um elaborado trabalho de tratamento de imagens e um projeto gráfico e capa audaciosos, assinados pela excelente designer Regina Cassemiro. Testamos mais de uma dúzia de opções até chegar à capa definitiva: um detalhe da cabeça do ator Felipe Falcão, em foto de Eduardo Viveiros.


No decorrer desse quase um ano de reelaboração do projeto, as conversas com Jairo versavam muito sobre o livro, mas invariavelmente enveredavam para outras paragens e viagens – uma conversa sempre intrigante/instigante. Em uma dessas me confidenciou que considerava essa a versão definitiva do livro. A personalidade icônica e escandalosa de Jairo Ferreira o tornou um legítimo fruto do movimento marg(enial)inal e, claro, cobrou seu preço: às vezes não era figura fácil de se lidar – o que rendeu boas histórias paralelas.


Com sua morte, familiares assumiram os direitos de sua obra, a tiragem de Cinema de Invenção da Limiar se esgotou e o livro saiu de catálogo. Em 2016, a Editora Azougue o relançou.


Plágio


Nessa republicação, a Editora Azougue utilizou a mesma concepção de capa criada por Regina Cassemiro, sem autorização da designer e da Limiar, sem dar créditos e sequer haver qualquer consulta ou contato prévio para autorização do uso. Reproduzir a capa de um livro sem consentimento expresso e crédito do original fere a lei 9610/98, que regulamenta os direitos autorais de obras intelectuais.


Foi lastimável o organizador do livro, Paulo Sacramento, não ter me procurado, ele acompanhou de longe a edição feita pela Limiar em 2000, nos encontramos em vários eventos e conversamos bastante sobre o livro e a obra do Jairo.


Por diversos motivos a Limiar não abriu processo contra a Azougue, encaminhei um email para a editora, mas ele deve ter caído em um limbo e nunca foi respondido.


Acabei deixando para lá, mas a data do aniversário de morte do Jairo me fez refletir que a sua memória mereceria uma edição mais honesta, sem desnecessárias intervenções do organizador e plágio da capa – uma afronta à criatividade e inventividade que o livro clama.

Jairo Ferreira | 1945-2003

Jairo Ferreira foi coordenador do Cine Clube Dom Vital, de 1964 a 1966, crítico de cinema do jornal São Paulo Shimbum, (1966-72), crítico dos jornais Folha de S.Paulo (1976-80) e O Estado de São Paulo (1988-90), além de colaborar com várias revistas Filme Cultura e Artes, Metacinema e Contracampo entre outras. Foi assistente de direção em O quarto, de Rubem Biáfora, e Orgia ou o homem que deu cria, de João Silvério Trevisan. Corroteirista de O pornográfo, de João Callegaro; Corrida em busca do amor, Sonhos da Vida e Sangue Corsário, de Carlos Reichenbach. Venceu o prêmio Governador do Estado pelo roteiro do filme O Pornógrafo.

Filmografia

· 1973 – O Guru e os Guris

· 1975 – Ecos Caóticos

· 1975 – O Ataque das Araras

· 1977 – Antes Que Eu Me Esqueça

· 1978 – O Vampiro da Cinemateca

· 1978 – Horror Palace Hotel

· 1979 – Nem Verdade Nem Mentira

· 1980 – O Insigne Ficante

· 1993 – As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thoth

Fontes: Skoob / Cinemateca Popular /Mubi

Texto atualizado em 15set20222

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Norian Segatto é jornalista, escritor, fundador e editor executivo da Limiar. Autor de Crônica de uma ilha vaga (2011 - Limiar) e A estrela do abismo (2019 - Limiar), coautor de Por trás da máscara (1996 - Publisher Brasil), Djalma Santos, do porão ao palácio de Buckingham (2013 - Amazon book), além de organizador de diversos títulos e participação em coletâneas, como Corpos - contos eróticos.


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