O legado de Capitu – um livro instigante



Um senador e um deputado gaúchos que aspiram grandes poderes, um jornalista desaparecido em Brasília, um brasileiro professor de literatura em Berlim, imigrantes e alemães convivendo num prédio dos tempos da Segunda Guerra, agentes de serviços secretos de diversos países, maçonaria... esses são alguns dos ingredientes/componentes do primeiro romance policial de Flávio Aguiar.

Quando peguei o livro para ler, sabia que ele não me decepcionaria. Li alguns das dezenas de livros do Flávio e gostei, sempre. Um deles, o romance “Anita”, publicado pela Boitempo, tive o privilégio de ser um dos revisores. Um trabalho que era uma diversão. E mais: me enchia de informações sobre a catarinense Anita, heroína de dois mundos, ao lado do seu marido, Giuseppe Garibaldi, unificador da Itália.

Foi premiado com o Jabuti.

Mas falemos dessa aventura em que Flávio Aguiar inaugura sua verve na literatura policial. Uma mensagem funciona como código que desafia os personagens o tempo todo, é chave para o esclarecimento de um crime e entendimento de uma situação que, segundo um graduado agente da Abin – Agência Brasileira de Inteligência – poderia interferir nos destinos do Brasil.

O legado de Capitu. Esta é a mensagem. Quem poderia decifrar isso? Ora, um professor de literatura, conhecedor profundo da obra de Machado de Assis, especialmente de “Dom Casmurro”, com a ciumeira de Bento Santiago, marido da bela Capitu: ela teve ou não um caso com o amigo Escobar?

Se há um debate infindável nos meios literários se Capitu era ou não amante de Escobar, neste romance policial, essa dúvida potencializa, pois seria preciso entender o que alguém quis dizer sobre o legado de Capitu como imprescindível para resolver a situação e evitar tragédias.

Mas tem uma coisa: esse professor de literatura mora em Berlim. Solteirão, apreciador de boas bebidas e boas comidas se vê forçado a entrar no caso, e seguem-se aventuras rocambolescas envolvendo neonazistas xenófobos e imigrantes na Alemanha de tempos recentes, uma época em que no Brasil a direita já punha as asas de fora, com suas manifestações na avenida Paulista.

Ambientado na friorenta Alemanha, com passagens por São Paulo, Brasília e principalmente Porto Alegre, o livro tem, como diz na contracapa, “uma trama complexa [...] apimentada por escândalos políticos, suspense, digressões sobre alta literatura e uma inesperada grande paixão. Com personagens cativantes – ora cômicos, ora desprezíveis, ora adoráveis –, o mistério vai aos poucos se revelando ao leitor, quase como num convite para revisitarmos o pensamento dessa mulher em milhares que sempre será Capitu”.

Não podia faltar humor, e não falta. Aventuras amorosas, também. Bebidas de manhã, bebidas de tarde, bebidas à noite... em casa ou num bar, coisa quase onipresente em romances policiais, também não falta neste. Porém bebidas que, ao contrário das narradas em alguns livros em que policiais ou envolvidos se encharcam em beberagens ruins, são ótimos vinhos e bons destilados, como legítimos conhaques e armanhaques de dar água na boca de leitores que sejam também bons bebedores.

Cheias de surpresas, gostosas de ler, provocantes, as 260 páginas parecem bem menos. Eu mesmo ansiava para ver que diabo a dita mensagem significava e saber o final, e assim a leitura foi rápida. Mas tenho que falar de um defeito dele: não é encontrável em nenhuma livraria. Tanto na versão e-book (R$ 19,90) como na impressa (R$ 45,00), deve ser adquirido na Amazon, coisa terrível para um dinossauro como eu. Tive que recorrer a uma irmã para comprar o meu. Impresso, claro. Dinossauro da minha estirpe não tem esse negócio de e-book.

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Mouzar Benedito é escritor, jornalista, geógrafo, autor de dezenas de livros, entre eles a coleção de romance policial Bill Ferrer, editado pela Limiar.

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