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Aurora Cursino: louca, artista, prostituta

Atualizado: 8 de fev. de 2023


Obra sem título: Museu de Arte Osório Cesar



Por Norian Segatto


Quase desconhecida do grande público – e também de quem “circula” pelas artes – a obra de Aurora Cursino é um sussurro de liberdade e, ao mesmo tempo, um grito contra a opressão. Toda a sua produção artística – mais de 200 quadros - foi desenvolvida nas dependências do Hospital Psiquiátrico do Juquery, manicômio onde viveu de 1944 até a sua morte, em 1959. Lá foi diagnosticada de "psicose paranoide", "personalidade psicopática amoral", "esquizofrenia parafrênica" e "autismo intenso".

Seus transtornos de saúde mental e o fato de ser prostituta a afastaram do círculo das “pessoas de bem” da época. Aurora nasceu em 1896, em São José dos Campos, casou-se obrigada pelo pai, um pequeno comerciante local. O matrimônio durou menos de 24 horas; fugiu do casamento forçado, uma das causas que ela atribuía à deterioração de sua saúde mental.

As datas nem sempre são precisas, mas entre 1910 e 1930 se prostituiu nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. No boêmio bairro carioca da Lapa, foi vizinha do transformista Madame Satã e do poeta Manuel Bandeira, entre outras personalidades e políticos. Em 1919 foi atacada por um repórter, que lhe fora apresentado por José Eduardo Macedo Soares, dono do jornal Diário Carioca. Prestou queixa, em um dos raros registros seus da época, acusação que não deu em nada, óbvio.


Aurora Cursino dos Santos: uma das raras fotos da artista

Em São Paulo, chegou a frequentar um curso de enfermagem para atender aos soldados na Revolução Constitucionalista de 1932. Trabalhou como doméstica, mas nunca se livrou das marcas da prostituição, que a seguiram pela vida e arte. Morou em albergues e continuou no trabalho de rua. Em 1941 foi internada no Hospital Psiquiátrico de Perdizes, três anos depois, aos 47 anos, conheceu o Complexo Hospitalar do Juquery, de onde nunca mais sairia. Essas informações constam de uma matéria do site BBC News Brasil e do livro Aurora: memórias e delírios de uma mulher de vida (editora Veneta), de Silvana Jeha, doutora em História pela PUC-Rio, e Joel Birman, professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ. Para Birman, o caso de Aurora sintetiza a violência do sistema judiciário e manicomial do país: "São vidas protocoladas por registros clínicos e policiais, entre outras leituras supostamente crítico-negativas", diz o psicanalista.


Obra sem título retrata a relação com o compositor Zequinha de Abreu: Museu de Arte Osório Cesar

Segundo a matéria da BBC News Brasil, “boa parte da obra de Aurora é composta por registros pictóricos de sua vida no manicômio. Em certos quadros, a barbárie institucional se mescla às antigas memórias de prostituição. É o caso de uma tela que retrata os interiores do Hotel Piratininga, no centro de São Paulo. Aurora e Zequinha de Abreu (compositor de Tico Tico no Fubá) fazem sexo sobre uma cama suja, enquanto um médico os observa no canto do quarto. A prostituta é penetrada por fios, que acendem lâmpadas multicoloridas numa espécie de rádio gigante. O maquinário parece extirpar seus membros e órgãos internos, com engrenagens específicas para o coração, estômago, pulmões, fígado, cabeça, pescoço, ventre, seios, pernas e pés”.



Expressão pela arte

A Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery surgiu em 1949, a partir do ateliê de Osório Cesar, e foi fechada no emblemático ano de 1964. Militante comunista, Osório e outros intelectuais de esquerda, como Mário Pedrosa e a psiquiatra Nise da Silveira, esteve entre os primeiros autores a investigar as relações entre arte e loucura.

"Aurora é um dos exemplos mais evidentes de que a hipótese de Osório César sobre o desenvolvimento da auto-expressão era possível, principalmente se fossem oferecidas condições de trabalho e uma atitude motivadora por parte dos orientadores artísticos. Sem ter experienciado atividades artísticas antes de sua internação, (...) ela alcançou, com sua produção, níveis pictóricos marcantes. (...) A transposição para a pintura de fatos vividos e imaginados, misturavam-se a uma linguagem expressiva, frases soltas e colorido intenso. Envolvia-se no seu trabalho, produzindo intensamente. Pintando e falando ao mesmo tempo, vivia na ambivalência do mundo real e imaginário (...). ... (O) período (da década de 50) corresponde à sua melhor fase pictórica. Trabalhando com cores quentes, vibrantes, realçadas por contrastes expressivos, a sua temática vai refletir cada vez mais, um mundo imaginário e de alucinações. Osório César, ao analisar suas pinturas, comenta que a última fase de seus trabalhos evidencia-se pela grande incidência de temas sexuais, de violência e de crimes", afirma Maria Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz em sua tese de doutorado A Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri ECA/USP, 1989.


“A Brazileira”: foto de Gisele Ottoboni/Prefeitura de Franco da Rocha


Aurora Cursino pintou de forma explícita os temas e traumas que marcaram sua vida, com abundância de imagens de pênis, vaginas e ânus, cenas, estupros, prostituição, baladas noturnas, violências sofridas nas ruas e na instituição psiquiátrica. Seu corpo (e o feminino, em geral) é retratado como o campo invadido por agressores. Em 1955, Aurora foi lobotomizada. Ela morreu no dia 30 de outubro de 1959, aos 63 anos.


Exposições Coletivas

1950 - Paris (França) - Exposição Internacional de Arte Psicopatológica 1951 - São Paulo SP - Exposição de Artistas Alienados, no MAM/SP 1954 - São Paulo SP - Exposição de Artistas Plásticos do Hospital do Juqueri, no Masp 1955 - São Paulo SP - Exposição dos Artistas do Juqueri, no MAM/SP 1955 - São Paulo SP - Exposição dos Artistas Plásticos do Juqueri, no Clube dos Artistas e Amigos da Arte (Clubinho)


Exposições Póstumas

1981 - São Paulo SP - 16ª Bienal Internacional de São Paulo. Arte Incomum 1987 - São Paulo SP - Arte e Loucura. Limites do Imprevisível, no MAC/USP 1988 - São Paulo SP - Juqueri: Encontro com a Arte, no Sesc Pompéia 2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Imagens do Inconsciente, no Parque Ibirapuera 2000 - Rio de Janeiro RJ - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Imagens do Inconsciente, no Paço Imperial 2002 - São Paulo SP - Arte e Inconsciente: três visões sobre o Juquery, no Instituto Moreira Salles


Fontes de pesquisa e citações:


Matéria publicada originalmente no site Sinpsi.org

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Norian Segatto é jornalista, escritor, fundador e editor executivo da Limiar. Autor de Crônica de uma ilha vaga (2011 - Limiar) e A estrela do abismo (2019 - Limiar), coautor de Por trás da máscara (1996 - Publisher Brasil), Djalma Santos, do porão ao palácio de Buckingham (2013 - Amazon book), além de organizador de diversos títulos e participação em coletâneas, como Corpos - contos eróticos.

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